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Denilson Cardoso de Araújo


 
 

REFLEXÕES SOBRE O PERDÃO

Sobre cobrança de virtudes

Perdão é algo que não se arranca com exortação,

tirada indireta ou certo desdém no discurso.

Perdão se pede. Com jeito e maneiras.

Assim como se pede pra namorar alguém.

Assim como se pede um beijo.

Porque, o que assim pede, revela carência sincera,

daquele pedaço que falta, daquilo que completa seu coração.

Como o amor, perdão é criação cuja existência demanda encontros,

enlaces, dois corações que na mesma face de prata da lua se aplacam.

Aquele que um dia feriu, planta no outro a faca dentada da mágoa.

Faz um estrago. Algo que sangra, que quebra, que rasga...

Não pode queixar-se de que ali permaneça a cicatriz,

aquela dor, uma escara.

Aquela coisa que ao agressor incomoda, pois revela

sua capacidade mais negativa de criação:

a harmonia rachada, a triste desconstrução.

Claro que, ao ferido,

é dado optar por lavrar naquela dor semeada um interno perdão,

fazer da cicatriz um enfeite do caráter, um aprendizado, um calo

que dá personalidade, como uma marca de bala,

uma tatuagem de prisão.

Mas isso não ocorre em vida vivente, concreta, vida externa...

fica, ali, um perdão latente, uma vacina interna gerada

com a dor da indignação, pra curar a dor da mágoa...

um perdão existente mas escondido, como um diamante, um petróleo,

uma água guardada no fundo do solo.

Coisas aguardando adequada mineração.

Observe.

Diamantes não ficam por aí, pulando em nossas algibeiras, do chão.

Porque valem muito, a terra os recolhe, os guarda em silêncios,

e só os entrega ao cuidadoso que os busca na terra, aquele que,

ciente do valor do achado, vai lhe dar adequado buril e ourivesaria gentil.

Assim também, o perdão.

Como um ovo que precisa ser fecundado, o perdão existe ali,

latente, demandando ao que feriu que reconheça

sua obra de destruição (repentina, culposa, impensada, que importa?)

 e que opere o pleito simples, efetue

o pedido singelo, uma palavra curta, sílaba pouca,

uma chave, quase uma brisa, que transforma em coisa viva, em coisa ave,

encarnada coisa, o perdão.

Logo, só se pode acusar em alguém a dureza do ausente perdão

se este, ao ter sido solicitado,

nos padrões razoáveis, nos cuidados de garimpar pó de ouro,

nas gentilezas de catar ouro no milho e feijão,

se quando assim pedido, foi efetivamente recusado.

Aí sim, teremos um caso de alguém doente dessa doença grave,

moléstia do perdão encravado.

Mas antes disso, antes do pedido, da lavra, da seara,

da ação que fecunda o latente perdão, é agressão renovada

qualquer diagnóstico precipitado, porque vira faca nova

cujo fio é uma injusta acusação.

E nova injustiça, certamente, não ajudará a sanar

a ferida primeira, o rasgo que

motivou toda essa reflexão...



Categoria: EU E OS MEUS
Escrito por Denilson Cardoso de Araújo às 21h46
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FELICÍSSIMO NATAL

 

 

Para uma amiga querida

Minha querida,

Salvo engano, este será um período de alguma dor no peito pra você, como é, sempre, para tantos. É que nos queremos sempre completos, inteiros, e isso significa termos todos os nossos cabelos, ossos inteiros e membros em ordem, nossos jardins conosco, nossas pessoas, nossas âncoras, a rosa da vida, tudo em que nos reconhecemos, sem que falte uma só pétala.

Mas o tempo vai levando umas flores, o vento despenteia algumas sebes e o Natal acaba sendo, erroneamente, para muitos, o tempo de contabilizar, ainda que involuntariamente,  essas perdas. A mesa da ceia onde um lugar não é preenchido, um sorriso que decorava o presépio, uma voz que cantava um gloria patri... e que silenciou. Eu sei que dói.

Mas o bacana do Natal é que manjedoura é essa lição mesmo,  de despojamento. De perder para ganhar, porque a perda nos constrói. Estar fora do aconchego de Nazaré, terra da Anunciação, pra encontrar abrigo entre anjos, num estábulo de Belém.  O cocho de boi que vira berço de Rei do mundo. Desvestir-se de uma realidade pra ingressar em outra, não menor. Maria e José fugindo num jeguezinho, pro Egito, com um Deus ainda não desmamado de estrelas... A família grande, completa, pra trás. Um fim. Mas há a estrada nova, um começo.

Toda história tem seu Herodes, não é? Por isso, há perdas. Mas veja de outra forma. Só porque há reis perversos, manjedouras e Egitos, só por isso, Salvador existe. De onde: Natal não é tempo de contar derrotas, partidas ou perdas. Natal é dia de fazer na saudável saudade, o inventário do futuro, na verdade. Não é subtração. É soma. É tempo de olhar não a ausência, mas a presença que a ausência deixou. Porque, o que se foi, deixou uma ruga boa em nosso coração, um calo na alma que nos dá sensatez, uma lágrima sempre brilhando no olho, sempre ali, tão ali, concreta, quase que em pedra. Mas preciosa pedra, dessas que nos constroem. Viram lentes, por onde medimos o mundo.  Assim ganhamos personalidade, assim fazemos  nossa Ilíada pessoal, nossa Odisséia que nos levará à Terra Nostra.

Natal nos traduz. E o que parece só dor, é crescimento. Por isso, alegre-se à volta da mesa. Que haja a fartura possível de pão, mas que haja a fartura invencível de alegria. De Alegria: Outro Natal, outra vitória!  Foram-se umas pétalas, deixaram em nós seu perfume. Cumpriram seu papel, deixaram sua marca no mundo. Em nós. Honremo-la, espalhando as palavras que melhoram em fragrâncias o ambiente do mundo. Colhamos o ouro da lembrança, refinemo-lo em jóias de bom viver, aprendamos o conselho do ensinamento guardado, o canto que nos enfeitou o ouvido.  

Quem ouviu Caruso no Scala, ao vivo, vai lamentar porque Caruso não mais gorjeia aqui, na minha sala? Não. Aquele momento glorioso do vocalize do grande lírico é só teu. Sequer há nos discos. É teu. Caruso cantou no teu ouvido. Não lamente sua ausência, porque ausência não há. Aquela voz em glória, no seu melhor momento, depositou-se em você. Na geologia do ser é uma camada de sustentação do teu solo. Ali há húmus, combustíveis, proteínas.. sementes! Ali tuas raízes se fartam. Percebe.

E "Caruso" pode ser um tio, uma avó, a mãe carinhosa. Deus nos permitiu vê-los em solos imortais de ímpar viver. Lembra? A palavra, a canção, o murmúrio, o suspiro, a gargalhada... ah, a gargalhada!... Uma lareira. Gente que nos aquecia. Gente assim não se perde, e nem se lamenta a partida. Se comemora o empréstimo divino.

Tivemos nosso quinhão de tesouro. Pessoas, coisas, vivências. Não, ele não se foi. Vira bagagem. Vira cantil. Vira alforje de estrelas.

Que a alegria comande tuas mesas, tuas ceias, a sombra das árvores de Natal, que tropeços havidos virem começos, que os novos começos sejam de sol, e que aquela tua prece à volta da ceia  traga mananciais de amor que sacramentem a vitória de mais um ano em que o renascer faz o seu melhor:  recomeça.

Felicíssimo Natal pra você!!!



Categoria: POESIA, ARTE E CIA
Escrito por Denilson Cardoso de Araújo às 11h36
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