REFLEXÕES SOBRE O PERDÃO

Sobre cobrança de virtudes
Perdão é algo que não se arranca com exortação,
tirada indireta ou certo desdém no discurso.
Perdão se pede. Com jeito e maneiras.
Assim como se pede pra namorar alguém.
Assim como se pede um beijo.
Porque, o que assim pede, revela carência sincera,
daquele pedaço que falta, daquilo que completa seu coração.
Como o amor, perdão é criação cuja existência demanda encontros,
enlaces, dois corações que na mesma face de prata da lua se aplacam.
Aquele que um dia feriu, planta no outro a faca dentada da mágoa.
Faz um estrago. Algo que sangra, que quebra, que rasga...
Não pode queixar-se de que ali permaneça a cicatriz,
aquela dor, uma escara.
Aquela coisa que ao agressor incomoda, pois revela
sua capacidade mais negativa de criação:
a harmonia rachada, a triste desconstrução.
Claro que, ao ferido,
é dado optar por lavrar naquela dor semeada um interno perdão,
fazer da cicatriz um enfeite do caráter, um aprendizado, um calo
que dá personalidade, como uma marca de bala,
uma tatuagem de prisão.
Mas isso não ocorre em vida vivente, concreta, vida externa...
fica, ali, um perdão latente, uma vacina interna gerada
com a dor da indignação, pra curar a dor da mágoa...
um perdão existente mas escondido, como um diamante, um petróleo,
uma água guardada no fundo do solo.
Coisas aguardando adequada mineração.
Observe.
Diamantes não ficam por aí, pulando em nossas algibeiras, do chão.
Porque valem muito, a terra os recolhe, os guarda em silêncios,
e só os entrega ao cuidadoso que os busca na terra, aquele que,
ciente do valor do achado, vai lhe dar adequado buril e ourivesaria gentil.
Assim também, o perdão.
Como um ovo que precisa ser fecundado, o perdão existe ali,
latente, demandando ao que feriu que reconheça
sua obra de destruição (repentina, culposa, impensada, que importa?)
e que opere o pleito simples, efetue
o pedido singelo, uma palavra curta, sílaba pouca,
uma chave, quase uma brisa, que transforma em coisa viva, em coisa ave,
encarnada coisa, o perdão.
Logo, só se pode acusar em alguém a dureza do ausente perdão
se este, ao ter sido solicitado,
nos padrões razoáveis, nos cuidados de garimpar pó de ouro,
nas gentilezas de catar ouro no milho e feijão,
se quando assim pedido, foi efetivamente recusado.
Aí sim, teremos um caso de alguém doente dessa doença grave,
moléstia do perdão encravado.
Mas antes disso, antes do pedido, da lavra, da seara,
da ação que fecunda o latente perdão, é agressão renovada
qualquer diagnóstico precipitado, porque vira faca nova
cujo fio é uma injusta acusação.
E nova injustiça, certamente, não ajudará a sanar
a ferida primeira, o rasgo que
motivou toda essa reflexão...



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Escrito por Denilson Cardoso de Araújo às 21h46